E no escuro gelado, se eu for para a janela, contar meus problemas para a Noite,
deixar que o ar exalado embace os vidros,
que o frio rache meus lábios, é só isso que há.
Os cães vadios não se importam, seus passos rápidos enquanto se abrigam nos cantos, nas sombras que prometem mais segurança.
Da luz amarela dos postes, quentes só aos olhos, da luz branca das estrelas, que de calor não são nem memória.
Despejo, numa voz sussurrada, com a garganta seca, a pele ardendo, angústias, amores, medos.
À razão da boemia, de quem se arrisca,
mesmo nesses meses congelantes, pela simples liberdade que é oferecida pela ausência de mil olhos e vozes em cada esquina.
E, se me arrisco, também, é só até a calçada,
para sentar no meio fio e desfiar, sem pressa, anseios que não veem a luz do dia,
e finalmente imitar os gatos, ariscos, desaparecer num átimo
ao som da presença humana.
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