domingo, 9 de julho de 2017

mênade

não estou sã
deixei de estar, faz pouco tempo, nem 10 minutos atrás, veja bem

talvez seja privilégio, meu, ou de escritores todos
de se deixar enlouquecer em doses medicinais


ora, não estou sã
não aguentava mais minha sanidade, meus pensamentos tão certos, tão retos, feitos trens em trilhos, feito lâminas de facas em linhas de produção, feito martelos em pregos em construção, feito barulho de caminhões em estradas lotadas, no trânsito, na chuva

não estou sã porque meus sentimentos estavam todos pontudos feito cacos, e cortando meus dedos e meu peito e minha boca
quando eu falava, escrevia ou só estava
me cortava

não estou sã, por escolha, pra evitar que eu vá louca por inteiro
me jogue do quinto andar, e abrace o asfalto como se fosse o amante de uma vida inteira

louca, louca em doses medicinais, mas é que às vezes você pesa um pouco a mão no remédio
ai olhar pra janela é ver um mundo todo torto, mas, assim, por dentro, você é mais calma
em geral, o turbilhão, ele aquieta
os amores, se amenizam
o sofrimento se amortece

quem sabe é ver o mundo tão torto quanto você, faz o contraste, não contrasta, acalma

penso se um dia resolvo ir louca de vez
os resultados que vou ter
catatônica, talvez
mas minha mente, em fim, livre.

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