sábado, 11 de novembro de 2017

Carta Descrente

 "Amor é ferida que dói e não se sente" disse um, e, pudesse eu, metia-lhe o pé na boca.

Ando um tanto cínica com as visões rosadas que me passaram. A vida de tanta gente parece tingida de rosa; mas não o rosa claro de um por do sol romântico. La Vie En Rose. Sim sim, La Vie En Rose;
Mas de cortes fundos que mostram a carne ao sol, às moscas, à sujeira. O rosa de um matadouro e açougue.

Estou tão amarga quanto o café expresso que sorvem, quente qual as caldeiras do inferno, todo dia, pra se acordarem de sua sonolência. Vivem, afinal, sob influência de diversas drogas, prescritas ou ilegais, e mesmo aquelas produzidas pelos próprios cérebros, que dão, assim, uma ilusão, uma aura (rosa) onde antes era tudo uma parede cinza.

Estão, assim tomados pelos fractais de suas trips, viagens loucas em trens balas com finais de linha sórdidos perdidos entre soluços no travesseiro ou gemidos agudos em banheiros de festas abarrotadas, com o objetivo primário de se perder em amores de minuto, de algumas horas, ou de alguns anos, com baldeações aqui e ali, mas destino certo.

Talvez, tendo entrado tão atrasada nesse lado da vida que chamam de adulto, me encontro perdida e demasiado crítica do que deveria me ser comum. Não, não o conseguiria. O que não quer dizer que não o sinta. Mas, se minto pra mim mesma, as minhas lentes vão ser bem claras, transparentes, para eu saber em que tipo de prego enferrujado estou pisando.


Até mais ver.


Um comentário:

  1. A realidade é realmente amarga dependo de qual frasco você a bebe, de qual ângulo você a vê. O que fazem de forma repugnante ainda é para suportá-la, pois não há esperança ou força para melhoras. Fazemos o melhor que podemos, por não acreditarmos em nada melhor. Mas quem sabe um dia... Texto muito bom!

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